O berçário é o lugar onde o bebê passará boa parte do dia. Tomar uma decisão planejada e bem informada é fundamental para que tanto a família quanto a criança possam ter suas necessidades e suas expectativas atendidas
Depois de meses cuidando do bebê em casa, acompanhando cada minutinho do desenvolvimento dele, chega uma hora em que é preciso expandir a rede de apoio. Seja por necessidade de voltar ao trabalho, de estudar, ter um tempo livre para cuidar de si… A decisão de matricular o bebê em um berçário nem sempre é fácil. Afinal, é uma escolha que terá um impacto significativo na vida do pequeno — e da família.
A escolha da primeira escola é sempre um momento especial e cheio de dúvidas para as famílias. É a primeira grande decisão que você vai tomar pelo seu filho ou filha.
Por isso, é fundamental que a escola seja um ambiente seguro, acolhedor e alinhado aos valores da família. São muitas as variáveis, e grandes as expectativas!
Escolher um berçário particular para um filho não é tarefa fácil. A preocupação em fazer a escolha certa já começa durante a licença maternidade, em algumas famílias.
Segurança, alimentação, limpeza, profissionais e localização são alguns dos fatores.
O QUE OS PAIS DEVEM SE ATENTAR AO ESCOLHER O BERÇÁRIO DOS SEUS FILHOS?
Uma dica importante é contar com indicações de pessoas de confiança, conversar com outros pais que tenham referências da creche.
Atenção especial deve ser dada à segurança do local. Observar se há redes em janelas e escadas, escadas com antiderrapante, cozinha com porta de segurança, extintores de incêndio e saídas de emergência.
Outro ponto fundamental para a saúde do bebê é a higiene. Visitar o local de surpresa para avaliar a limpeza das salas, banheiros e cozinha, como é o preparo dos alimentos e a higiene das cuidadoras.
O número de funcionários e a sua capacitação, assim como a quantidade de crianças por sala, também devem ser considerados.
ESPAÇO FÍSICO E INFRAESTRUTURA
Avalie se existe área externa para as crianças brincarem, se o sol incide nestes ambientes e verifique se nos espaços fechados não há cheiro de mofo.
Para a Dra. Denise Corrêa Braga, pediatra, imunologista infantil e médica do Corpo de Bombeiros do RJ, um bom espaço físico com parquinho é essencial para a prática de atividades lúdicas e ajuda a promover o desenvolvimento. Ela destaca que vale checar se o chão é antiderrapante, para que a criança não se machuque. No local dos brinquedos mais altos, o ideal é que o piso seja emborrachado, para amortecer a queda.
“A área externa é importante para a criança não ficar o tempo todo confinada numa sala. (…) As creches não precisam ser tão grandes, mas têm que ter espaços lúdicos. O ambiente deve permitir a interação das crianças em pequenos grupos com supervisão das tarefas por uma auxiliar, para que todos possam participar das atividades pedagógicas programadas e para que a criança possa ter um cuidado individual, importante até os 4 anos para o desenvolvimento global”, explica a Dra. Denise.
Segundo Andrea Ramal, alguns estudos dizem que as creches devem ter 1,5 metros quadrados por criança na sala de atividades.
Para Maria Clotilde Rossetti-Ferreira, professora titular emérita de Psicologia do Desenvolvimento Humano da USP, os espaços devem ser seguros e favorecer a interação.
“Recomenda-se ir na primeira visita com tempo para observar como as crianças estão no ambiente, se estão felizes, se brincam com liberdade, se exploram as coisas, ou se ficam muito presas, com atividades muito escolarizadas. O berçário deve ser um centro acolhedor para os bebês. E os berços só devem ser usados na hora de dormir”, defende Maria Clotilde.
QUALIFICAÇÃO DOS PROFISSIONAIS
Informe-se sobre a qualificação, experiência e afazeres dos profissionais.
O curso de magistério de nível médio habilita dar aulas de educação infantil até 2020. Depois disso, o Plano Nacional de Educação prevê que, para dar aulas até o quinto ano do Ensino Fundamental, será necessário se formar em Pedagogia ou no Magistério Superior, também conhecido como Normal Superior.
Andrea Ramal defende que os auxiliares, que ajudam também na hora da fralda, do banho e até na sala de aula, tenham pelo menos o ensino médio, e não somente o fundamental, como ocorre em muitas creches.
QUAIS ATIVIDADES IDEAIS UM BERÇÁRIO DEVE TER?
É muito importante prestar atenção nas atividades oferecidas para essa tomada de decisão. É interessante que haja um projeto pedagógico, com brinquedos adequados para cada faixa etária, brincadeiras e estímulos de acordo com o estágio de desenvolvimento da criança e atividades ao ar livre.
O espaço físico deve ser adequado, com um ambiente arejado, com luz do sol e boa circulação de ar.
LIMPEZA E HIGIENE
Confira a limpeza geral da instituição, as instalações da cozinha, o estado dos banheiros e até dos brinquedos. Na visita à cozinha, verifique se os profissionais usam luvas e toucas.
Para a pediatra Denise Braga, as salas devem ser arejadas, com piso adequado, preferencialmente frio, que facilite a limpeza, e com acolchoado, para que os menores não se machuquem.
“Tem que ser bem higienizado. A limpeza adequada diminui o risco de doenças transmitidas por via oral, que são quase a maioria, como as doenças virais, que incluem os resfriados comuns, as estomatites e as gastroenterites”, explica a médica.
PREOCUPAÇÃO COM A SAÚDE
Pergunte se a creche exige a cópia da carteira de vacinação e atestado médico. Informe-se sobre os atendimentos em casos de emergência. O seguro saúde é obrigatório.
O Dr. Joel Bressa da Cunha explica que os problemas de saúde mais comuns em crianças nas creches são as infecções banais do trato respiratório (resfriados comuns) ou gastrointestinal (diarreias). Entre as causas, predominam os vírus. Observa-se aumento de casos de otites e conjuntivites e doenças causadas por bactérias e parasitoses.
“São doenças comuns em crianças dessa idade, e a creche contribui, ao aumentar o número de contatos pessoais, facilitando assim a transmissão das doenças. São processos naturais em ambientes coletivos. Diante do risco de doenças transmitidas por vetores, como dengue, zika e chikungunya, além da febre amarela, sugere-se atenção permanente aos sinais e sintomas demonstrados por alunos. As escolas devem estar preparadas para o combate aos mosquitos, com aplicação adequada de inseticidas e eliminação sistemática de depósitos de água parada, assim como para aplicação de repelente de insetos nos alunos, quando recomendado”, orienta o médico.
A Dra. Denise Braga diz que é importantíssimo pedir a cópia a da carteira de vacinação e responder a questionários sobre restrições alimentares, alergias, doenças, e o uso regular de remédios. Porém, nem sempre as escolas cobram essas respostas dos pais.
CÂMERAS DE VIGILÂNCIA
Os pais devem conversar ente si e com outros pais com filhos em creches, e decidir se a câmera deve ser uma exigência para eles.
A presença das câmeras pode ter vantagens, como a facilitação do controle interno dos profissionais, e desvantagens, como possíveis constrangimentos, em casos de mordidas, comuns em bebês. Muitos estabelecimentos possuem câmeras apenas para uso interno, outras permitem que os pais possam ter acesso às imagens, e outras não oferecem esta tecnologia.
A psicopedagoga Luciana Barros diz que as câmeras de vigilância servem muito mais às instituições, pois é impossível manter o controle o tempo todo. “Isso pode até ser perturbador para quem não está junto e tenta monitorar à distância”, comenta Luciana. A psicóloga Maria Clotilde também defende moderação no uso da câmera.
Andrea Ramal não considera a câmera necessária e defende ser importante encontrar uma creche na qual os pais confiem para ser construída uma relação de confiança e parceria:
“Ou você confia na instituição, ou você não deveria deixar o filho lá. Os pais têm que ter cuidado para não fazer disso um Big Brother. Acho que tem que ter moderação e confiar. Se os pais interferirem demais, pode não ser bom”.
Para a pediatra Denise Braga, a ferramenta também não é importante, e as mães devem se desligar da criança durante o período escolar:
“Quando você faz uma escolha por uma creche, as preocupações devem ter sido esgotadas. Tem que confiar que a criança vai estar bem cuidada. Se faz um machucado, bate a cabeça, mas depois fica bem, é inevitável. A criança vai ganhar outros espaços e se virar sozinha. Para uso interno, até sou a favor. Mas sou contra essa vigilância constante dos pais. Não é saudável. Pode causar um constrangimento em situações, como quando ocorrem mordidas, por exemplo. Morder, empurrar e beliscar acontece. É importante os pais se distanciarem. É saudável para a família”.
FLUXO DE ENTRADA E DE SAÍDA
Confira se a instituição tem sempre um funcionário na entrada, monitorando o fluxo de pais e crianças.
Certifique-se de que não há risco de crianças saírem sem ser notadas e pergunte como é feito o controle de desconhecidos.
Alguns pais preferem buscar os filhos na porta da sala, o que pode atrapalhar o andamento das atividades pedagógicas e comprometer a segurança no dia a dia, para alguns profissionais. “Não é bom os pais irem até a sala. Não vejo problema em não ir diariamente”, opina Andreia Ramal.
GRADES E TELAS PROTETORAS
Observe se há telas ou grades protetoras nas janelas e escadas.
Se você ainda se sente inseguro, mesmo com todo o cuidado ao pesquisar uma creche, lembre-se de que pedir referências de outros pais pode ajudar a esclarecer dúvidas e até a conhecer outras instituições não procuradas inicialmente. Converse com outros pais e faça perguntas diretas.
“É importante que os pais troquem experiência com outros pais com filhos em creches e vejam o que eles aprovam e desaprovam. Nunca se deve escolher uma creche sem visitar. A avaliação começa desde a hora da chegada. Se os pais são tratados com indiferença, ou impaciência, pode ser que o clima da creche não seja bom. Tem que reparar bem neste clima de cordialidade e de respeito”, orienta Andrea Ramal.
A educadora acrescenta que, apesar de ser difícil avaliar profissionais simplesmente pela observação ou por uma entrevista numa única visita, comportamentos que demonstram paciência, afabilidade, cordialidade e tranquilidade são sinais positivos. Ela comenta que o nível de exigência dos pais é proporcional ao nível de escolaridade deles.
“Quanto maior o nível de educação dos pais, mais eles costumam ser exigentes quanto à educação. Em algumas escolas públicas, eu vejo que as mães e os pais, como têm menos instrução, não conseguem exigir muito, ou perceber as necessidades da instituição. Mas há muitos veículos especializados, onde os pais podem se informar”, comenta a educadora, colunista do G1.
O Dr. Joel Bressa da Cunha destaca que vale observar também se as crianças demonstram alegria e como são as relações entre elas e os adultos, bem como as atividades em si: “Elas devem ser apropriadas, estimulantes e favorecer as interações, as brincadeiras e o conhecimento”, explica.
Por fim, verificar se o estabelecimento tem o alvará de funcionamento é fundamental. Este documento é emitido pelas prefeituras, que podem contar com o apoio do Corpo dos Bombeiros ou da Defesa Civil.
